A Alice

Alice olhou para a luz finalmente. Venho falando isso há um tempão. Ela achava que não ia dar conta. Eu disse para ela que fica aquela bolotinha no olho quando olha para a luz direto, mas não tem problema, se não ficar por muito tempo não cega, não. Dá para ver muita coisa. Ai, você abre bem o olho. Na escola tinha um negócio de levar pedaço de raio-x para olhar o eclipse solar. Que tinha que olhar para o sol. Eu não sei porque isso me marcou. Não sei se foram várias vezes ou foi uma só. Eu devia ter uns 4 anos, 5 no máximo. A gente foi para o pátio fora da hora do recreio (achei aquilo muito louco, ir para o pátio fora da hora!) mas era com a professora, né? Ai, a gente tinha que olhar para cima, pro sol, com o raio-x na frente para não queimar o olho. Muito doido aquilo. Me lembro como se fosse hoje. Já falei que me lembro de tudo? Quer dizer... tudo, né? A gente já discutiu que tudo é muita coisa... mas eu me lembro de muita coisa. Coisas demais. Acho que é por isso que eu não lembro da cara das pessoas, porque eu me lembro de todos os acontecimentos, ai a cara, a fisionomia, não cabe mais no HD. Fica um monte de acontecimentos com pessoas sem cara. haha. Eu heim? Coisa de gente doida. Alice disse que também lembra, lembra do cheiro da professora Kênia quando abraçou ela no dia do parabéns, ela estava de camiseta cinza, e o choro molhou na altura da barriga. Ela era da altura da barriga da professora. Que doideira... Chorou porque a turma estava cantando parabéns para ela. Ela não sabe porquê. A Alice tem essas coisas, ela chora muito. Não sabe porque... bom que o olho não entope! Mas você já olhou pra luz? Fica uma bolotinha, né? Era disso que a gente estava falando. Lembrei agora.

Fotografia Original de Ana Paula Rabelo Na Foto: Alice




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