A Morte

A Alice disse que leu A Crônica de uma Morte Anunciada em espanhol. Eu não li, não. Na estória, diz que começa já dizendo: não sei o quê e tal, acordou tal hora do dia que iria morrer. Ai você já começa o livro sabendo que o cara vai morrer. Ela disse que isso não atrapalha em nada, que a leitura é tão boa que você esquece o nome do livro, ai você fica com esperança que ele não morra. Tem uma confusão danada no livro. Ela me contou, mas eu não guardo essas coisas. A crônica de uma morte anunciada, tipo a vida de todo mundo, né?... Ficou meio pesado o assunto, né? Desculpa, não queria ter lembrado isso. Tem coisa que é ruim lembrar, né? Nessa foto eu acho que ela está a cara da Ofélia, de Hamlet, quer dizer de Shakespeare, né? Se bem que pode ser de Hamlet porque Hamlet é o nome da peça. Problema é que na foto ela lembra a cena da Ofélia morta também. Ai, volta pro tema que a gente estava tentando evitar. É... Ofélia não era louca não, tadinha, é o tempo que zuava as mulheres. Se bem que eu acho que nessa caso não mudou muito. 1500 e alguma coisa, né, não lembro? Ofélia não existiu, é um personagem, só. Mas na época que ele escreveu, se é que ele existiu mesmo - dizem que nem existiu mesmo, que eram várias pessoas - era assim. Não sei. Também não sei se isso importa agora. Importar ou não importar, ai fica ai, essa questão para você. Nossa, hoje eu estou escrevendo que nem a gente fala... como nós falamos. Mal pra burro. Ah, a Ofélia morre afogada. Me lembrei, aqui.

Fotografia Original de Ana Paula Rabelo
Na Foto: Alice




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